quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ensaio Historiográfico


“HAVIA a Europa e nisso se resumia a história”
                                              
Henri Moniot                       
           

Esta passagem segundo Moniot[1] caracteriza sistematicamente a ideia eurocêntrica de mundo ou civilização e a concepção herdada da modernidade. A ciência europeia, o conhecimento e o progresso tornaram o velho mundo o “paradigma exemplar” de sociedade e civilidade, detentor da lógica e faculdades humanas. O projeto cientificista europeu Positivista caracteriza no século XIX as recém-constituídas ciências do homem apresentando o modelo metódico para compreensão dos problemas demandados das contradições, dos conflitos, das instabilidades e das crises presentes e passadas da sociedade. A História científica (consagrando a paternidade a Leolpold V. Ranke, historiador alemão) surgirá neste clima, com métodos e objetos próprios para a reconstituição dos eventos factuais históricos tendo a Europa como o berço histórico humano.

O significado histórico das relações coloniais a partir dos primórdios da mundialização econômica e sociocultural nos séculos XV-XVII, relegou a posteriori a forte tradição do paradigma eurocêntrico como atributo comparativo das formas diversas do “outro” (alteridade); dos meios tecnológicos; das constituições culturais (cristianismo) e da sociedade em geral, concebida sempre em vias de um sentido único de civilização – a do Velho Mundo. Esse dilema histórico, ou a forte imposição eurocêntrica no mundo ocidental e oriental, postulou aos “povos inferiores na escala sócio evolutiva” (africanos e ameríndios principalmente), um relegar de seus passados históricos na medida em que emergem “social e historicamente” em razão do contato messiânico do europeu. Esta “dádiva” sairia caro, manifestando-se emblematicamente no grande “etnocídio”[2] sofrido pelos sujeitos até então a- históricos, compreendidos tradicionalmente numa lógica maniqueísta (do ponto de vista historiográfico ocidental) em seus passados e devir histórico, mas ainda sim sujeitos de suas escolhas.
  
  Os povos “descobertos” pelo europeu, situados além dos limites geográficos da Europa e a forma como se relacionaram, produziu uma experiência singular no cerne do emergente mundo moderno e suas instituições. É inegável a força teológica cristã manifestada nos espaços coloniais do ocidente e sua legitimidade justificadora de ações de natureza impositiva e segregativa. Todo esse processo, não passivamente aceito, mas em “relativa desvantagem”, transformou sujeitos africanos e ameríndios, não expropriados de suas escolhas, mas apáticos a elas, reféns de uma história/realidade compartilhada, induzida e a luz de princípios e postulados alheios aos seus.

O olhar análogo etnocêntrico trazido da Europa carregou consigo a bagagem histórica de séculos de progresso gradativo e linear que justificava seu “grau” de sociedade/civilização e superioridade política/cultural em relação às outras organizações sociais. Nesse processo a ideia de categorização dos grupos humanos em estágios – selvageria, barbárie, estado de natureza – solidificava cada vez mais o “fardo do homem branco”; sua responsabilidade para com o “mundo em atraso” e com o forjar de um homem “equiparado” (a sua condição) mesmo reduzido-o à condição de cativo e alienado da evolução social humana (Darwinismo Social – Herbert Spencer 1820-1903), suprassumo do projeto ideológico neocolonial oitocentista.   

Tanto no mundo colonial americano quanto africano é persistente a lógica “sangue, religião, escravidão” como força propulsora da conduta política, religiosa e social e das relações de trabalho nos espaços subjugados. Concebendo a escravidão, é um fenômeno marcante para a afirmação da autoridade econômica e principalmente para hierarquização e exclusão social na colônia americana ibérica. Na dimensão dos gentios da América portuguesa, “inconstantes por natureza”, tem-se uma necessidade inicial: incorporá-los no âmbito da atividade mercantil (escraviza-los) e logo em seguida cooptá-los a tutela do poder religioso mediante catequese. O negro africano rigorosamente enquadrado na estrutura escravocrata é peça fundamental para o “sucesso” econômico da colônia e manutenção do prestígio e poder de uma elite colonial (e talvez pós-colonial brasileira) religiosamente consagrada, quando então submissa às aspirações pró-patriarcal.

O aspecto religioso é o meio legitimador de “certas” condições humanas no contexto colonial: num momento legitima a escravidão de uns e em outro delega a conversão e salvação. Nisso pode se antever bases notórias do racismo moderno. A negação do convívio medieval entre as três religiões cristã, judaica e muçulmana, com vista a uma uniformidade religiosa (conversão compulsória) marca este processo e expõem os estigmas aos judeus, ameríndios, negros etc., como seres a margem sociocultural do império ibérico.

Portanto, na mesma medida em que possui importância frente ao estado português à instituição religiosa relativamente se omite no que diz respeito à constituição social hierárquica dos sujeitos na colônia portuguesa, parece ausentar-se de tal processo sem alocar argumentos redefinidos sobre a questão da segregação e marginalização social dos agentes coloniais.



  
       
Ensaio historiográfico
Leandro de Freitas Pantoja
Graduando em História - UNIFAP                          


[1] MONIOT, Henri. “A história dos povos sem história”. In: LE GOFF, Jacques & NORA, Pierre. História: Novos Problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, p. 99-112.
[2] Termo que designa não somente a extinção física de povo ou grupo como também de sua cultura. O trabalho em que pude conceber tal ideia encontra-se em: BRITO, Cecília M. C. Índios das “Corporações”: trabalho compulsório no Grão-Pará no Século XVIII. In: ACEVEDO MARIN, Rosa E. A Escrita da História Paraense. Belém: UFPA, 1998, p. 115-137.
 

Ensaio Historiográfico


“HAVIA a Europa e nisso se resumia a história”
                                              
Henri Moniot                       
           

Esta passagem segundo Moniot[1] caracteriza sistematicamente a ideia eurocêntrica de mundo ou civilização e a concepção herdada da modernidade. A ciência europeia, o conhecimento e o progresso tornaram o velho mundo o “paradigma exemplar” de sociedade e civilidade, detentor da lógica e faculdades humanas. O projeto cientificista europeu Positivista caracteriza no século XIX as recém-constituídas ciências do homem apresentando o modelo metódico para compreensão dos problemas demandados das contradições, dos conflitos, das instabilidades e das crises presentes e passadas da sociedade. A História científica (consagrando a paternidade a Leolpold V. Ranke, historiador alemão) surgirá neste clima, com métodos e objetos próprios para a reconstituição dos eventos factuais históricos tendo a Europa como o berço histórico humano.

O significado histórico das relações coloniais a partir dos primórdios da mundialização econômica e sociocultural nos séculos XV-XVII, relegou a posteriori a forte tradição do paradigma eurocêntrico como atributo comparativo das formas diversas do “outro” (alteridade); dos meios tecnológicos; das constituições culturais (cristianismo) e da sociedade em geral, concebida sempre em vias de um sentido único de civilização – a do Velho Mundo. Esse dilema histórico, ou a forte imposição eurocêntrica no mundo ocidental e oriental, postulou aos “povos inferiores na escala sócio evolutiva” (africanos e ameríndios principalmente), um relegar de seus passados históricos na medida em que emergem “social e historicamente” em razão do contato messiânico do europeu. Esta “dádiva” sairia caro, manifestando-se emblematicamente no grande “etnocídio”[2] sofrido pelos sujeitos até então a- históricos, compreendidos tradicionalmente numa lógica maniqueísta (do ponto de vista historiográfico ocidental) em seus passados e devir histórico, mas ainda sim sujeitos de suas escolhas.
  
  Os povos “descobertos” pelo europeu, situados além dos limites geográficos da Europa e a forma como se relacionaram, produziu uma experiência singular no cerne do emergente mundo moderno e suas instituições. É inegável a força teológica cristã manifestada nos espaços coloniais do ocidente e sua legitimidade justificadora de ações de natureza impositiva e segregativa. Todo esse processo, não passivamente aceito, mas em “relativa desvantagem”, transformou sujeitos africanos e ameríndios, não expropriados de suas escolhas, mas apáticos a elas, reféns de uma história/realidade compartilhada, induzida e a luz de princípios e postulados alheios aos seus.

O olhar análogo etnocêntrico trazido da Europa carregou consigo a bagagem histórica de séculos de progresso gradativo e linear que justificava seu “grau” de sociedade/civilização e superioridade política/cultural em relação às outras organizações sociais. Nesse processo a ideia de categorização dos grupos humanos em estágios – selvageria, barbárie, estado de natureza – solidificava cada vez mais o “fardo do homem branco”; sua responsabilidade para com o “mundo em atraso” e com o forjar de um homem “equiparado” (a sua condição) mesmo reduzido-o à condição de cativo e alienado da evolução social humana (Darwinismo Social – Herbert Spencer 1820-1903), suprassumo do projeto ideológico neocolonial oitocentista.   

Tanto no mundo colonial americano quanto africano é persistente a lógica “sangue, religião, escravidão” como força propulsora da conduta política, religiosa e social e das relações de trabalho nos espaços subjugados. Concebendo a escravidão, é um fenômeno marcante para a afirmação da autoridade econômica e principalmente para hierarquização e exclusão social na colônia americana ibérica. Na dimensão dos gentios da América portuguesa, “inconstantes por natureza”, tem-se uma necessidade inicial: incorporá-los no âmbito da atividade mercantil (escraviza-los) e logo em seguida cooptá-los a tutela do poder religioso mediante catequese. O negro africano rigorosamente enquadrado na estrutura escravocrata é peça fundamental para o “sucesso” econômico da colônia e manutenção do prestígio e poder de uma elite colonial (e talvez pós-colonial brasileira) religiosamente consagrada, quando então submissa às aspirações pró-patriarcal.

O aspecto religioso é o meio legitimador de “certas” condições humanas no contexto colonial: num momento legitima a escravidão de uns e em outro delega a conversão e salvação. Nisso pode se antever bases notórias do racismo moderno. A negação do convívio medieval entre as três religiões cristã, judaica e muçulmana, com vista a uma uniformidade religiosa (conversão compulsória) marca este processo e expõem os estigmas aos judeus, ameríndios, negros etc., como seres a margem sociocultural do império ibérico.

Portanto, na mesma medida em que possui importância frente ao estado português à instituição religiosa relativamente se omite no que diz respeito à constituição social hierárquica dos sujeitos na colônia portuguesa, parece ausentar-se de tal processo sem alocar argumentos redefinidos sobre a questão da segregação e marginalização social dos agentes coloniais.



  
       
Ensaio historiográfico
Leandro de Freitas Pantoja
Graduando em História - UNIFAP                          


[1] MONIOT, Henri. “A história dos povos sem história”. In: LE GOFF, Jacques & NORA, Pierre. História: Novos Problemas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, p. 99-112.
[2] Termo que designa não somente a extinção física de povo ou grupo como também de sua cultura. O trabalho em que pude conceber tal ideia encontra-se em: BRITO, Cecília M. C. Índios das “Corporações”: trabalho compulsório no Grão-Pará no Século XVIII. In: ACEVEDO MARIN, Rosa E. A Escrita da História Paraense. Belém: UFPA, 1998, p. 115-137.